Alguns dos filmes da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo estão disponíveis na plataforma de filmes The Auteurs, numa iniciativa que a Renata de Almeida e o Leon Cakoff, na nota de apresentação da parceria, chamaram de “pioneira” e que, sem dúvida, promete mudar o panorama das mostras e festivais de cinema do mundo todo. O acesso gratuito aos filmes em mídia digital abre a possibilidade de entrar em contato com parte da Mostra Internacional a quem está a incontáveis quilômetros de distância de São Paulo para poder frequentar pessoalmente as sessões. Foi dessa possibilidade que me beneficiei ao assistir (com legendas em inglês) o novo filme de Takeshi Kitano, Aquiles e a tartaruga, sobre o qual escrevo a seguir (a partir de algumas idéias que coloquei por lá num comentário em inglês).
#
Perturbador em seu inexorável ritmo narrativo – como um rio caudaloso e lento em seu fluxo inevitável, mas sereno – Aquiles e a tartaruga segue as tentativas de Machisu Kuramochi, desde a infância até a velhice, no intuito de se tornar um pintor, de ser reconhecido como um artista, de se ver consagrado no mercado artístico. De fato, é da inserção no mercado artístico por meio da venda de suas obras que depende a própria artisticidade do que Machisu realiza.
O “mundo da arte” (para usar a expressão do sociólogo Howard Becker) que se revela no filme de Kitano pertence ao contexto do capitalismo tardio e de sua reconstituição de toda a história da arte como um desfile de superfícies, orquestrado como um espetáculo cuja vazia sacralidade não significa nada a a não ser um radical afastamento da arte em relação à mundanidade da vida em sua cotidianeidade. O que torna Machisu um personagem desconcertante é o lugar que ocupa no contexto dessa cisão radical entre arte e vida. O questionamento modernista e vanguardista das práticas, instituições e significados da arte – buscando, nas primeiras décadas do século XX, uma reconstrução das pontes que a unem à mundanidade da vida cotidiana – constitui a herança que pesa sobre os ombros de Machisu, uma herança de inovação experimental que foi domesticada pelas instituições que dão forma ao mercado da arte e configuram os nós de sua economia em rede na contemporaneidade.
A figura de Machisu habita a zona de indeterminação entre arte e vida. Essa é a origem da tragicômica inexorabilidade de sua história: a vida de Machisu não pode ser distinguida de uma obra de arte em processo, em devir. Tudo se torna matéria prima para seus experimentos: da visão de seu pai suicida ao corpo de sua filha morta, Machisu transforma toda experiência que atravessa e todo objeto que encontra em assuntos e motivações de arte, mesmo se nunca adquire o reconhecimento buscado por seus esforços. A boina que carrega consigo através de todo seu itinerário – um signo estereotipado da artisticidade, presente dado pelo (já falso e enganoso) artista patrocinado por seu pai – parece ser um símbolo do vazio do espetáculo da arte no capitalismo tardio. Mas, em Aquiles e a tartaruga, o vazio da lacuna que separa a arte e a vida – como a distância insuperável que separa Aquiles da tartaruga no paradoxo que intitula e inicia o filme – se torna a ponte que une a arte à vida, que as indiferencia numa mesma zona de indeterminação insinuada na figura de Machisu, aquele que aí encontra sua morada – constituindo, como assinala um dos letreiros que escande a narrativa fílmica, já no seu final, o momento em que Aquiles alcança a tartaruga.