Animáquina: fotografia e discursos da brasilidade

Foto de Dago Paulo R - Arara

Brasilidade – Fauna
Fotografia de Dago Paulo R. Veja seu Twitter e seu Flickr.

Fotografia e texto

O desafio da interpretação e análise de qualquer imagem começa por um problema crucial e interminável: sua contextualização. Como resultado daquilo que, no livro O ato fotográfico e outros ensaios, Philippe Dubois chama de “golpe do corte”, a fotografia aparece como uma fatia de espaço e de tempo, que remete ao contexto original de captura da imagem na mesma medida que nos afasta dele. Devemos nos contentar com indícios – contundentes, mas provavelmente insuficientes – e dar uma atenção especial à relação entre aquilo que uma imagem mostra e aquilo que ela não mostra, mas podemos adivinhar ou imaginar quando a observamos – isto é, a relação entre campo e fora-de-campo.

Além dos indícios visuais de caráter propriamente fotográfico, é comum que as fotografias sejam acompanhadas de informações textuais. A começar pelo título que, eventualmente, o fotógrafo dá à imagem que capturou, passando pela legenda que, talvez, ele ou um editor atribuam à imagem, chegando a comentários mais longos, como depoimentos, reconstituições e rememorações sobre a cena fotografada, o texto constitui um suplemento crucial para a fotografia{1}.

Ao enviar sua imagem para o projeto Outros olhos, Dago escolheu um título – “Brasilidade – Fauna” – e escreveu um comentário que poderia funcionar como legenda - ”Como nossa fauna é rica em cores e detalhes!”. Porém, nenhum desses elementos textuais aparece de fato na imagem, como a assinatura que vemos no canto inferior direito. Entre todas as instâncias do texto na fotografia, a assinatura desempenha uma função que tem efeitos sociais e políticos fundamentais: a função de marca de autoria, que pode ser tanto individual quanto institucional. Marcar a autoria é uma forma de reivindicar os direitos de uso da imagem, assim como de indicar sua procedência, num contexto tecnológico que potencializa igualmente as formas de apropriação, manipulação e disseminação de imagens. Em outro sentido, marcar a autoria é também inscrever a imagem num contexto suplementar ao contexto de captura (cujos indícios são visíveis no campo e permanecem imagináveis no fora-de-campo): o contexto de manipulação da imagem, que supõe a intervenção sobre suas características depois do clique, podendo até mesmo modificar substancialmente o que o aparelho fotográfico registrara num primeiro momento. Em todo caso, mesmo no momento da captura não existe nenhuma pureza da realidade sendo capturada pela câmera. Ao contrário, a captura fotográfica consiste justamente numa forma de fabricação da realidade, com base nos programas embutidos no aparelho fotográfico, nas variáveis de foco, luz, entre tantas outras, calculadas pelo fotógrafo, e estabelecidos pelas circunstâncias{2}.

Fauna e brasilidade

A arara se destaca sobre o fundo desfocado em que, contudo, podemos identificar plantas e uma grade quadriculada. A grade é um dos indícios mais importantes para imaginarmos o contexto de captura da imagem: um zoológico ou um espaço que se destina igualmente à exibição de animais. A fotografia da arara prolonga o dispositivo de exibição dos animais que está em jogo no zoológico e que, contudo, a imagem não permite ver por completo. Ao prolongar o dispositivo do zoológico, por outro lado, é como se a fotografia constituísse uma prótese: ela permite ver detalhes que permanecem invisíveis a olho nu, como se diz. Vestindo nossos olhos, o aparelho fotográfico suplementa suas possibilidades. Aqui, como o comentário/legenda sugere, vemos uma enorme riqueza de cores e detalhes, que se evidenciam sob a luminosidade difusa do registro – uma luz que revela também a pulseira de controle na pata da arara, sob a forma de uma superfície pontiaguda{3}, de um brilho um pouco mais intenso que irradia sentidos no cerne da imagem.

O ato de olhar o animal movimenta uma série de questões, tanto no contexto do zoológico quanto no marco da fotografia. Entretanto, gostaria de comentar especificamente o feixe temático que está em jogo no título e no comentário/legenda: a ideia de brasilidade e a sua associação com o motivo da fauna rica. As formas de imaginação da nação desempenham um papel central na sua construção, na delimitação dos contornos sensíveis que dão a ela a concretude de uma comunidade política de pertencimento. Desse ponto de vista, quando fotografamos elementos típicos do imaginário nacional, participamos do processo de construção da nação: nossa fotografia se deixa capturar, num movimento ambivalente, pela máquina do discurso nacional.

A arara da fotografia de Dago não é, portanto, apenas um animal que foi registrado na superfície ricamente colorida da fotografia. Mais importante: em seu devir-imagem{4}, a arara é animáquina, inscrevendo-se num dispositivo de produção de sentidos que tem como fim a fabricação da ideia de brasilidade.

Outra-mente

Uma das tarefas fundamentais que devemos assumir – diante das imagens com as quais entramos em contato cotidianamente e, de forma ainda mais importante, em relação àquelas que produzimos – consiste em propor um exercício imaginativo a partir da seguinte pergunta: é possível imaginar essa imagem de outra forma? Seus temas, suas características estéticas, as escolhas formais – se tudo isso fosse trabalhado de maneira diferente, seriam obtidas outras imagens e outros efeitos de sentido. Diante do império da redundância em que nos encontramos, imaginar outra-mente não é apenas um exercício interessante e cheio de surpresas, a que muitos de nós sem dúvida nos dedicamos quando pensamos em como uma determinada foto ficaria melhor de outro jeito, se pudéssemos fazê-la de novo. Imaginar outra-mente é também uma obrigação criativa, repleta de potência inventiva (com efeitos estéticos, éticos e políticos) e de intensidade sensorial e intelectual. Como é possível imaginar outra-mente o que vemos na fotografia, a arara como animáquina inscrita no dispositivo da brasilidade? Outros títulos, outros comentários/legendas, outras interpretações poderiam lançar a mesma imagem em outros sentidos? Você tem alguma sugestão de títulos e/ou comentários/legendas que resultem em interpretações alternativas? Por outro lado, você imagina outras imagens que abordem de forma diferente as mesmas temáticas da brasilidade e da fauna? E afinal, antes de tudo, o que você achou da fotografia de Dago? E dos meus comentários? Deixe sua opinião na caixa de comentários e vamos conversar!

  1. Até mesmo quando está ausente da superfície da imagem, a informação textual se faz presente na mente do espectador, que procura palavras para descrever o que vê. Apesar de a interpretação mais comum da ideia de que uma imagem vale por mil palavras estar relacionada a um suposto caráter inefável, inexprimível ou indizível da imagem, talvez seja possível propor uma interpretação alternativa, baseada na ideia de valor: se uma imagem vale por mil palavras, é porque nosso olhar paga por tudo o que vê com o preço da linguagem, de alguma linguagem que, consciente ou inconscientemente, vem nos habitar. []
  2. É um tema fundamental para Vilém Flusser no livro Filosofia da caixa preta, cuja leitura recomendo muito a qualquer pessoa que queira compreender a fotografia em relação à época em que vivemos, com base no pensamento rico desse filósofo checo naturalizado brasileiro. []
  3. Estou pensando no punctum de que fala Roland Barthes em A câmara clara: “O punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere).” []
  4. O devir-imagem de alguma coisa é aquilo que, nela mesma, a abre para fora de si, fazendo-a puro sensível, expropriável e interminavelmente re-apropriável por outros, em outros lugares. Nesse sentido, o devir-imagem projeta para fora de todo contexto. []

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  • http://www.facebook.com/DagoPauloR Dago Paulo R

    Olha “bravo” pelo seu comentário. Vc conseguiu realmente captar o que eu falava de Brasilidade, o fato é que temos vários aspectos de leitura visual que chega ser “infinito” com tanta riqueza que uma “simples” foto pode passar. Essa fotografia foi tirada em Foz do Iguaçu no parque da Aves, poxa lá é um lugar que qual quer fotografo de animais gostaria estar sem comparação aos “zoológicos” do Brasil, mas é isso ai obrigado por abrir essa oportunidade “Maravilhosa” e pode deixar q vou tirar mais fotos!

  • http://incinerrante.com/ Marcelo R. S. Ribeiro

    Eu é que agradeço pelo interesse e participação! Vi que enviou mais uma foto e ela já está na fila. Envie outras sempre que quiser!

  • http://www.facebook.com/marinamartinsmarques Marina Marques

    adorei!

  • http://incinerrante.com/ Marcelo R. S. Ribeiro

    Obrigado pelo comentário, Marina! Sua fotografia é a próxima. Estou apenas em meio a trabalhos aqui na universidade, o que deve me manter mais afastado do site até o próximo fim de semana. Vou tentar atualizar antes, mas não garanto.