Carcará: o momento decisivo
Carcará (Caracara plancus)
Fotografia de Marina Marques. Veja seu Twitter e seu Flickr.
Os tempos da fotografia
Há uma multiplicidade de tempos em jogo na fotografia e, de certa forma, a imagem fotográfica parece se constituir como um abrigo dos tempos. A duplicidade da preposição “de”, que liga a palavra “abrigo” a seu complemento, “os tempos”, não deve passar despercebida: a fotografia é ao mesmo tempo, de um lado, o que abriga as coisas contra os tempos – que as transformam, as destroem, as recriam, num fluxo interminável, mesmo que finito – e, de outro lado, o que abriga o tempo de cada coisa na sua singularidade, acolhendo essa singularidade temporal na superfície da imagem.
Quando pensamos – e praticamos – a fotografia como arte do instantâneo, está em jogo o controle sobre o tempo de exposição e a possibilidade de sua redução a frações muito pequenas. No decorrer de uma série de experimentos iniciais no século XIX, o tempo de exposição necessário para a fixação da imagem – que então se formava físico-quimicamente – foi gradualmente reduzido de 8 horas ou mais até chegar a milésimos de segundo, num patamar que se estabeleceu como uma regra para todos os aparelhos fotográficos e permitiu identificar o ato de fotografar com apertar um botão.{1}
Se nossa experiência do tempo se passa como um fluxo – cuja inconstância a metáfora do rio procura captar na repetida fórmula de Heráclito segundo a qual nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio – o instantâneo fotográfico aparece como congelamento. No abrigo do congelamento fotográfico do tempo, vão buscar refúgio as coisas, que ali se liberam das contingências ao se fazerem pura aparência, e os tempos, que ali podem conviver como as águas de uma pluralidade de rios que deságuam no mar. Como abrigo dos tempos, a fotografia marca a existência de algo de irreprodutível no cerne de um dispositivo de reprodutibilidade: a aparência reprodutível da imagem re-vela a consistência irreprodutível das singularidades que ela acolhe.
Entre todos os tempos que concorrem na superfície acolhedora de qualquer imagem fotográfica, pode-se destacar três tempos que permanecem irredutíveis entre si e que envolvem possibilidades diferentes de cálculo e de jogo: o tempo da captura (que envolve o cálculo do tempo de exposição e o jogo do acaso), o tempo da revelação (que envolve o cálculo dos tempos de processamento e o jogo da plasticidade) e o tempo da aparência (que envolve o cálculo dos tempos de circulação e de comunicação e o jogo da disseminação).
O momento decisivo
Tempo e movimento se entrelaçam na nossa experiência como os fios da corda bamba sobre a qual caminha nossa consciência. Por isso, perder a consciência – no sono ou no sonho da razão, no delírio, no entorpecimento… – equivale a uma queda da corda, ou ao menos a um desequilíbrio: sem noção do tempo, o movimento que se faz confuso, a desorientação. Na imagem fotográfica instantânea, o congelamento do tempo equivale à interrupção do movimento pela fixação de um de seus instantes. Vendo uma imagem fotográfica instantânea, experimentamos uma expansão da nossa consciência: continuando sua caminhada sobre a corda que se tece de tempo e movimento, a consciência se encontra diante de uma paragem, na qual ela pode passear, como se na corda bamba se abrisse uma clareira{2}. Mesmo que nossos olhos não se dediquem ao passeio na superfície de uma ou outra imagem com que nos deparamos, os efeitos da paragem da consciência perduram, persistem, insistem.{3}
Se a imagem fotográfica convida nossa consciência para uma paragem e para um passeio na clareira que abre no fluxo do tempo e do movimento – permitindo que nós possamos ver o que se passa, por exemplo, com o carcará que a Marina fotografou, no instante em que o animal inicia seu voo – o ato fotográfico passa com frequência pela pressa: é preciso ser rápido para capturar o que Henri-Cartier Bresson chamava de momento decisivo. Num sentido, ao passeio do espectador na imagem fotográfica do carcará corresponde o passo apressado que abriga o ato fotográfico. É o descompasso entre o passeio do espectador no tempo da aparência e a pressa de quem fotografa no tempo da captura que marca a distância entre o clique e a visão da imagem. Em outro sentido, à rapidez do clique que capta o momento decisivo, corresponde a lentidão da visão que abriga o momento indecidível da imagem. É talvez por causa desse descompasso que a Marina comentou, contextualizando um pouco o momento do clique, o tempo da captura: “sempre achei que deveria ter feito na horizontal, mas eu estava dentro de um carro em movimento, nem deu tempo de pensar muito”.
A imagem movimentada
O tempo e o movimento só aparecem para a fotografia e só tomam corpo na imagem fotográfica sob a forma de fantasmas{4}. No instantâneo do carcará, o movimento do voo aparece como fantasma. Estamos no terreno da denegação, que corresponde no tempo ao que no espaço se costuma denominar extra-campo, fora-de-campo ou fora-de-quadro (conceitos que seria preciso em algum momento diferenciar com mais rigor). É como se, decifrando o movimento do voo ali onde a aparência mostra apenas a fixidez da paragem, nós tomássemos consciência de algo que está além do instante, o fora-de-instante ou o extra-instante. É o que faz da imagem fotográfica uma imagem movimentada, mesmo sem movimento algum que lhe seja próprio. O tempo e o movimento são, ao mesmo tempo, o que a fotografia não pode não perder e o que ela não cessa de insinuar: seu exterior constitutivo, a falta que a define. No tempo e no movimento que se perdem, o carcará terá seguido o itinerário de sua vida, encontrando talvez seu fim. Em todo caso, no abrigo fotográfico, sua figura permanece como pura aparência, ao abrigo do tempo, e um instante do tempo singular de sua existência se abre para nossas consciências, como a clareira
Que passeios você faz na foto da Marina? O que a imagem do carcará sugere a você? Você concorda com a Marina que a foto ficaria melhor se tomada na horizontal? Por quê? Deixe sua opinião na caixa de comentários!
- Uma das fotografias que evidencia os dilemas paradoxais envolvidos no processo de redução do tempo de exposição necessário para a fixação da imagem é “A grande onda”, de Gustave LeGray. Ali, está em jogo a conciliação da lógica do instantâneo – que recorta fatias homogêneas de tempo – e a lógica da montagem – que inscreve fatias diferentes na sincronia superficial da imagem. [↩]
- Naquele que pode ser considerado um dos textos mais difíceis e mais intensos da teoria da imagem, o ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin (disponível no volume 1 de suas obras escolhidas, intitulado no Brasil Magia e técnica, arte e política), o autor discute os sentidos em que a fotografia (e o cinema), ao possibilitar(em) a reprodutibilidade técnica da arte e do mundo, abre(m) experiências novas para a sensibilidade humana, propondo o conceito de inconsciente ótico ou visual. Quando falo em expansão de consciência pela fotografia, estou pensando na forma pela qual as imagens fotográficas abrem a clareira do inconsciente ótico ou visual para nossos olhos. O cinema, como argumenta Benjamin, leva esse movimento de expansão da consciência em outros sentidos. [↩]
- O poder sugestivo de todo tipo de imagens – tão largamente explorado pela publicidade e pelo marketing - alcança, na fotografia, possibilidades muito singulares de intensificação, relacionadas ao fato de que a imagem fotográfica constitui uma impressão luminosa da realidade, mesmo quando o resultado é abstrato ou o processo está atravessado por evidentes formas de manipulação. [↩]
- Ronaldo Entler diferenciatrês formas de representação do tempo na fotografia: denegação (quando o movimento se completa na imaginação do espectador), a inscrição (quando o movimento deixa um rastro que tende à abstração na superfície figurativa da imagem) ou a decomposição (quando o movimento só aparece na reunião de uma multiplicidade de imagens, no intervalo que separa os instantâneos). [↩]


