Cinejogo: Espelhos

Fotografia de olho espelhando paisagem

Em fantasia, esbocei o projeto e a projeção de um filme que se guiasse por dois fios entrelaçados de histórias. O primeiro deles seguiria uma narrativa contada através de reflexos, sombras, vultos e outras imagens indiretas e talvez imprecisas. O segundo deles seguiria uma narrativa inscrita nos objetos-suporte que refletem, delineam, borram ou distorcem as imagens que comporiam o primeiro fio.

Sem dialética conciliadora, sem mistura, o entrelaçamento desses dois fios se daria através da irredutibilidade que os separa. Por mais que se entrelacem, por mais que se interpenetrem, por mais que se enxertem continuamente um no outro, os dois fios permaneceriam estrangeiros entre si, alheios, inassimiláveis, descompassados. Através de seu entrelaçamento, o que se mostraria a cada vez e cada vez mais seria sua absoluta diferença.

Não é apressado prever que se trataria de dois fios apenas num plano formal entre outros, sem supremacia significante sobre os outros, sem domínio sobre as outras possibilidades. Muitos mais fios se entrelaça(ria)m. Em outros planos formais, do ritmo ou da textura do som aos tipos de objetos, do grau de luminosidade à força ou sutileza dos movimentos, os fios narrativos se multiplica(ria)m. A proposta é apenas partir de um dos planos formais – a distinção (provisória) entre imagens indiretas e objetos-suporte – e tomá-lo conscientemente como eixo de uma articulação narrativa.

O jogo poderia se aprofundar em diversos sentidos: por exemplo, se as imagens indiretas forem reflexos, podem abrigar outros objetos-suporte que abriguem por sua vez outras imagens indiretas que abriguem outros objetos-suporte… e assim sucessivamente ad infinitum; alguns objetos-suporte poderiam ser ou se tornar opacos à narrativa, como por exemplo uma parede monótona ao pôr-do-sol, que abriga a imagem de sombras e, lentamente, vai escurecendo, enquanto as sombras vão sumindo e a opacidade da parede interrompe a narrativa das sombras mas prolonga a diegese geral do filme em outro(s) sentido(s); se dois objetos-suporte aparecerem em cena, a relação entre as imagens indiretas contidas em cada um pode apontar ainda outros rumos, para além do que cada uma constitui. E por aí vai.

Uma linguagem formal convencionada na teoria do cinema poderia vir a esclarecer diversas das proposições acima. Em todo caso, permanece aqui sua sugestão e a insinuação do jogo. Que, me parece, não é outra coisa que a vida: uma sucessão de imagens ecoando imagens, rastros perpasseando rastros, fios se entrelaçando incertos e interminavelmente finitos.