Film Socialisme: os fantasmas da alegoria

Plano de Film Socialisme: uma história impossível“O que se abre diante de nós se assemelha a uma história impossível.”
Ce qui s’ouvre devant nous ressemble à une histoire impossible.”

Um dos fantasmas que assombra qualquer leitura de Film Socialisme é a alegoria. Da estrutura em três mo(vi)mentos às legendas que se dispersam em fragmentos sobre a tela, o filme parece insinuar uma visão transcendental, como se em algum momento fosse possível vislumbrar ou reconstituir, na cifra alegórica das imagens e de sua orquestração assinada por Jean-Luc Godard, a máquina do mundo. No entanto, em nenhuma das pedregosas estradas que qualquer espectador é levado a trilhar se apresenta e se entreabre o todo, mesmo que num relance. Se há alegoria em Film Socialisme, é uma alegoria espectral, como um resto ou um vestígio incorpóreo.{1}

1. O navio como alegoria da comunidade

Plano de Film Socialisme: bandeira e povos

Naquele que pode ser considerado o primeiro mo(vi)mento de um filme-sinfonia{2}, o cruzeiro Costa Concordia assume um ar alegórico, representando a condição babélica do mundo contemporâneo e, em especial, da Europa. Se Godard está interessado em interrogar o lugar ocupado pela Europa no mundo contemporâneo, sua interrogação começa por revelar o estado de mobilidade, de fluxo, de liquidez em que transitam as coletividades, os apegos e os pertencimentos. Sobre as águas, o navio segue seu curso, singrando o Mediterrâneo como um microcosmo. O espaço do navio se revela cosmopolita em sua Babel. Uma das vozes da polifonia pode dizer, numa citação que ressoa sobre o plano de uma bandeira que tremula ao vento: “Você tem toda a razão: eu não amo nenhum povo. Nem francês nem norte-americano nem alemão. Nem o povo judeu nem o povo negro. Eu amo unicamente meus amigos, quando os há, nada mais.” / “Vous avez tout à fait raison : je n’aime aucun peuple. Ni français ni nord-américain ni allemand. Ni le peuple juif ni le peuple noir. J’aime uniquement mes amis, quand il y en a, rien d’autre.”{3} Espalhadas sobre o plano, as legendas começam sua fragmentação sem sintaxe com um belo verso de um haikai em inglês navajo: “nolove any people”. Um cosmopolitismo babélico se insinua na figuração do navio como comunidade sem língua comum, singrando os mares da história.

2. A família como alegoria do governo

Plano de Film Socialisme: o posto de gasolina da família Martin

No segundo mo(vi)mento, a família Martin e seu posto de gasolina parecem funcionar como uma alegoria das formas de organização e de integração política e econômica que marcam o mundo contemporâneo, recontextualizando a alegoria no fórum da casa, na domesticidade familiar como espaço controlado – e, portanto, disputado – que representa a coletividade e transferindo a ênfase da questão do comum para a questão do governo. Em primeiro lugar, trata-se de uma alegoria da França e, portanto, da nação em meio aos fluxos da globalização: após dizer que a França “corre hoje o maior risco de sua história” (La France court aujourd’hui le plus grand risque de son histoire), o pai da família argumenta que “é preciso saber dizer ‘nós’ para poder dizer ‘eu’” (Il faut savoir dire “nous” pour pouvoir dire “je”). Em segundo lugar, da Europa, como sugere o plano que separa o primeiro e o segundo mo(vi)mentos do filme-sinfonia, estampando, em letras brancas sobre um fundo preto, as palavras “QUO VADIS EUROPA”, que podem ser traduzidas (salvo engano) por algo como “PARA ONDE VAI EUROPA”, assim mesmo, como uma afirmação, sem qualquer sinal gráfico de interrogação. Em terceiro lugar, mais abstratamente, trata-se de uma alegoria da constituição de coletividades em geral, em diversos níveis – da família à humanidade, passando pela nação. As crianças da família, Florine e Lucien, questionam seus pais sobre liberdade, igualdade e fraternidade, enquanto uma repórter e uma cinegrafista realizam tentativas de entrevistas para um canal de televisão. Em meio a conversas sobre soberania, eleições, lei, poder, Estado, governo e outros temas politicamente carregados, projeta-se uma utopia (in)comum: é como se as crianças se libertassem de sua condição de presos políticos{4}, perturbando as formas de governo de si e dos outros que fundamentam a vida psíquica e a vida social nas condições atuais.

3. A figura da escadaria como alegoria da história

Plano de Film Socialisme: a escadaria de Odessa

No terceiro mo(vi)mento, uma vertiginosa montagem entrelaça imagens de arquivo – retiradas de filmes (como Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein), de noticiários televisivos, de transmissões esportivas – e reflexões por meio de falas e citações em mais de uma voz over. A vertigem da montagem de imagem e de som remonta à vertigem do tempo, propondo genealogias especulativas de inúmeros fenômenos – históricos ou míticos – que remetem à constituição do mundo em que vivemos, no qual o Mediterrâneo desempenha um papel crucial, embora não exclusivo. Do surgimento conjunto da democracia e da tragédia em Atenas ao conflito entre Israel e Palestina, passando pelas Cruzadas, pelo tráfico de escravos e pelo ouro do Sudão, pela Revolução Russa, pelo fascismo e pelo nazismo – as “Nossas humanidades” (Nos humanités) se revelam atravessadas pela guerra e pela “covardia, a prostituição e a traição” (la lâcheté, la prostitution et la trahison) que podem (ou parecem) comprar a liberdade. No cerne do terceiro mo(vi)mento de Film Socialisme, a cena da escadaria de Odessa em Encouraçado Potemkin articula os múltiplos sentidos da história e de seus mitos, investigados pela vertigem especulativa de Godard, aos fios narrativos do primeiro mo(vi)mento: o Costa Concordia chega a Odessa e as escadarias são revisitadas como atração turística, entre o Egito e a Palestina, de um lado, e a Grécia, Nápoles e Barcelona, de outro. Quando até mesmo a história, seus monumentos e vestígios se converteram em atrações de um parque temático – o mundo dito globalizado – é preciso encontrar novamente sua alteridade. Na figura da escadaria, como um eco do Angelus Novus de Paul Klee, inscreve-se uma imagem dialética da história.{5}

Insinuando e perturbando ao mesmo tempo as alegorias que abriga em fragmentos descontínuos, descosturados, Film Socialisme apresenta uma estética disjuntiva que reproduz e repercute formalmente a sua riqueza temática. A Babel das línguas, das legendas e dos pequenos abismos que as separam ou aproximam entre si se torna visível no entrelaçamento de imagens heterogêneas – desde as de câmeras digitais de alta resolução{6} até as de câmeras de telefones celulares, que remetem às imagens amadoras e seu mundo de borrões, enquadramentos trêmulos e formas inconstantes, cuja explosão marca a experiência imagética contemporânea. O tratamento e a montagem do som aprofundam o jogo babélico, dando às relações entre campo e fora-de-campo uma ambivalência irredutível por meio de uma ênfase incomum nos excessos, nos ruídos irreais do vento sobre o microfone, nos barulhos monótonos ou ensurdecedores do restaurante, das conversas e das festas a bordo do cruzeiro.

Em geral, a relação entre campo e fora-de-campo é complementar e o espectador liga um ao outro por meio de indicações visuais (como as linhas dos olhares das personagens visíveis na tela, que sugerem a presença de elementos dramáticos relevantes além dos limites do quadro) e de elementos sonoros (como uma voz que soa sem que vejamos de onde vem, insinuando um espaço complementar que pertence igualmente ao espaço diegético representado no campo da imagem). Em Film Socialisme, por sua vez, o que marca a relação entre campo e fora-de-campo é um duplo vínculo que se poderia chamar de suplementaridade{7}: há sempre excessos que, de um lado e de outro, em vez de permitirem o fechamento da diegese como se fossem as peças que faltam num quebra-cabeça, fraturam e despedaçam a continuidade espaço-temporal, compondo um mosaico de pouca solidez. Cabe a nós – como participantes ativos na construção de sentidos de uma obra de arte, e não espectadores passivos de um produto de entretenimento fechado que assume o estatuto de uma mercadoria - adivinhar ou inventar a figura geral desenhada pelos pequenos fragmentos descontínuos que compõem o mosaico líquido de Film Socialisme. Foi isso que tentei começar a fazer nesse texto.

  1. Na Revista Cinética, Fábio Andrade argumenta que em Film Socialisme Godard constrói uma coleção polifônica de cacos em que “não parece haver mastermind possível”, ao contrário do que aconteceria em Histoire(s) du cinéma, Eloge de l’amour e Notre musique, nos quais “um raciocínio particular do diretor” organiza “os estilhaços da História” numa totalidade. No Quadrado dos loucos, Bruno Cava compara a figura de Godard no campo do cinema à figura de James Joyce no campo da literatura e escreve: “Como em Finnegans Wake, o conjunto não admite síntese ou sinopse, numa lógica fragmentária, em que cada fragmento desestabiliza a narrativa como um todo e estilhaça o tempo-espaço. Sobram cacos de imagens e ruídos.” Nesse sentido, Film Socialisme pode ser considerado uma tentativa de aprimorar o projeto modernista a que remetem, de uma forma geral, a obra de Godard e toda a nouvelle vague. No entanto, é importante destacar que existem tentativas de leitura analítica do filme que procuram reconstituir narrativas, compor um quadro geral, sendo um dos principais exemplos o texto de Arthur Mas e Martial Pisani no Independencia, ao qual ainda pretendo voltar em outros posts. []
  2. No website oficial de Film Socialisme, a obra é definida como “uma sinfonia em três movimentos” (une symphonie en trois mouvements). []
  3. Por algum motivo, suponho que isso seja de Hannah Arendt. Alguém confirma? []
  4. Em Conversações, Deleuze discute de forma muito interessante a frase “As crianças são prisioneiros políticos”, que atribui a um programa de televisão intitulado “Seis vezes dois” (Six fois deux), realizado por Godard e por Anne-Marie Miéville. []
  5. Para compreender o caráter dialético da imagem da história inscrita na figura da escadaria, é interessante lembrar a definição de pensamento dialético que um fotógrafo que está a bordo do Costa Concordia oferece no primeiro mo(vi)mento do filme, citando Jean-Paul Sartre: “Um pensamento dialético é, em primeiro lugar, num mesmo movimento, o exame de uma realidade, na medida em que ela faz parte de um todo, na medida em que ela nega esse todo e na medida em que esse todo a compreende, a condiciona e a nega. Na medida em que, por consequência, ela é de uma vez positiva e negativa em relação ao todo. Na medida em que seu movimento deve ser um movimento destrutivo e conservador em relação ao todo.” / “Une pensée dialectique c’est d’abord, dans un même mouvement, l’examen d’une réalité, en tant qu’elle fait partie d’un tout, en tant qu’elle nie ce tout et en tant que ce tout la comprend, la conditionne et la nie. En tant que par conséquence elle est à la fois positive et négative par rapport au tout. En tant que son mouvement doit être un mouvement destructive et conservateur par rapport au tout.” []
  6. A alta resolução, combinada a uma fotografia que exacerba as cores até o limite da irrealidade, resulta em imagens que lembram a publicidade e seu mundo de cores muito bem corrigidas, efeitos calculados e comportamentos programados. Além disso, é no vínculo entre ideia e imagem – uma questão central do filme – que Alice Furtado, na Contracampo, encontra a analogia entre a publicidade e a proposta estética de Godard, em que se trata menos de narrar do que de pensar com imagens, sobre as imagens e através das imagens. []
  7. A noção de suplementaridade remete ao filósofo franco-argelino Jacques Derrida. Trata-se de uma lógica dupla e indecidível, segundo a qual as relações entre dois elementos deixam de ser compreensíveis a partir de noções simples de causa e efeito, revelando-se indecidíveis. No caso de Film Socialisme, o campo não é a causa do fora-de-campo, nem o contrário, permanecendo indecidível o vetor de causalidade de sua relação entre si, na medida em que não se encontra a origem em nenhuma das partes. O campo suplementa o fora-de-campo e o fora-de-campo suplementa o campo: um substitui o que falta no outro e ao mesmo tempo um se acrescenta de forma excessiva, transbordante, em relação ao outro. []

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  • Carlos Henrique

    Eu vou ver se arranjo esse filme para ver.
    Quanto àquele trecho que imagina que seja da H Arendt, eu não sei se é de fato.
    Mas está bem na linha do pensamento dela.
    Seguindo seu aristotelismo, ela acredita na amizade mais que no amor.
    Creio que ela identifica o amor como um elemento da teologia cristã, o que não deixa de ser verdade.
    E a amizade seria algo como que o substrato do ideal cívico da política (para ela ateniense, sempre).

  • http://incinerrante.com/ Marcelo R. S. Ribeiro

    Obrigado pelo comentário, Cacá. Não sei se você gosta de outros filmes de Godard, mas vale a pena enfrentar o desafio de ver Film Socialisme. Nem conheço tão profundamente toda sua obra, mas gostei muito desse filme, assim como havia gostado do anterior, Notre Musique.

    Acabo de descobrir na internet um PDF com as páginas iniciais do livro da editora P.O.L. que contém a transcrição das falas de Film Socialisme. O texto está permeado de imagens dos rostos dos autores citados e, na página 10, logo após o trecho que desconfio ser de Hannah Arendt há um retrato de uma mulher que também desconfio ser Hannah Arendt. Olha lá: http://bit.ly/ezYETr

    É interessante ver o que o filme sugere sobre esse ideal cívico da política ateniense quando o terceiro mo(vi)mento do filme chega à Grécia (que Godard chama “Hellas”, sem dúvida, para possibilitar o jogo com “hell as”), a voz over de uma mulher diz “Democracia e tragédia se casaram em Atenas, sob Péricles e Sófocles. Um único filho: a guerra civil.” / “Démocratie et tragédie ont été mariées à Athènes sous Périclès et sous Sophocle. Un seul enfant, la guerre civile.” Me apropriando de um dos intertítulos mais importantes do filme, aquele que o encerra, eu diria: “No comments.”

  • http://www.facebook.com/people/Leandro-Calbente-Camara/100001799666752 Leandro Calbente Câmara

    Parece que você está certo, a frase veio de Hannah Arendt, mas foi modificada. Parece que ela escreveu algo assim, em resposta a uma carta de Gershom Sholem: “: je n’ai jamais dans ma vie “aimé” aucun peuple, aucune collectivité – ni le peuple allemand, ni le peuple français, ni le peuple américain, ni la classe ouvrière, ni rien de tout cela. J’aime “uniquement” mes amis et la seule espèce d’amour que je considère et en laquelle je crois est l’amour des personnes”. Encontrei a afirmação aqui: http://www.lemeilleurdesmondes.org/Mdm9_Pascal-Bruckner-faut-il-aimer-sa-patrie-MDM.htm

    Bem, não sou exatamente um grande fã do Godard, mas seu texto é bastante interessante. Diria até que achei mais interessante que o próprio filme, quem sabe pensando com mais calma no trabalho dele, possa reconsiderar este sentimento.

  • http://incinerrante.com/ Marcelo R. S. Ribeiro

    Obrigado pelo comentário, Leandro. Fico feliz também que meu texto tenha te interessado e te feito achar o próprio filme mais interessante. Interessante também saber que o trecho em questão tenha saído de uma carta de Arendt.

    Gosto muito do que já vi de Godard, mas confesso que conheço sua obra de uma forma limitada. Faz parte dos meus planos ver e rever algumas coisas dele. Especificamente, eu estou muito interessado nas Histoire(s) du cinéma, que estão faz tempo na fila mas exigem uma concentração imensa, porque parecem com uma verdadeira máquina de citações cinematográficas e eu não vi uma boa parte dos filmes em questão.

  • Alexandre Nodari

    Caro Marcelo: só uma nota de rodapé: sim, a foto é da Arendt. A fonte da citação parece ser a que o Leandro mencionou. Ela costumava falar esse tipo de coisa sempre, criticando a associação a uma identidade (biológica, ou social) – preferindo a associação a um corpo político (em sentido próprio, no qual homens livres se juntam por amor à coisa pública). Mas a questão é mais complexa, porque ela sempre ressaltava que, apesar disso, ela era judia, a condição objetiva era ineludível (o problema político é como coordenar esse elemento objetivo de identidade, pré-político, com a esfera pública: não se pode apagar completamente essas diferenças da esfera “privada”, nem elevá-las à condição única da política, ambas as saídas redundam em totalitarismo). Acho que o foco na amizade como contraponto à identidade biológica-social é uma tentativa de apontar uma saída para isso. Dito tudo isso, é meio sintomático esse retorno a Arendt. Em algum lugar, Agamben diz que no momento histórico em que Arendt deveria ter sido lida pela esquerda (os anos 1960 e 1970), ela não foi – e agora, que o seu pensamento perdeu o vigor temporal, ela é lida. Em todo o caso, ainda não vi o filme; acho que vai demorar pra chegar aqui na província, quero ver se consigo baixar, mas não achei na web ainda. Abraço

  • http://incinerrante.com/ Marcelo R. S. Ribeiro

    Alexandre, muito obrigado pelo comentário, tão elucidativo. Já vi outros textos tentando analisar as relações de Godard com o pensamento de Arendt (aqui, por exemplo, em torno de Notre Musique: http://www.telacritica.org/NotreMusique.htm). Há também uma tese sobre Arendt que passa pela interpretação de Notre Musique: http://repositorio.ul.pt/handle/10451/509 Eis algo que ainda precisa ser feito: compreender as relações entre o cinema de Godard e a filosofia, em especial no que diz respeito à delimitação dos horizontes imaginativos da esquerda no decorrer das transformações sociais e históricas que marcam o mundo a partir da segunda metade do século XX até hoje.

    No mais, a questão da relação entre identidade e política, que você descreveu, é crucial para pensarmos sobre o cosmopolitismo que se sugere no filme. A identidade constitui um efeito da inscrição dos sujeitos em redes discursivas que os ultrapassam e os constituem como tal, marcando-os. Nesse sentido, se Arendt se define e é definida como judia – apesar da preferência pela associação política livre e dissociada (a princípio) do componente identitário, que encontra na amizade seu paradigma – é porque esse “elemento objetivo” a constitui como sujeito. Não há sujeito da amizade, não há sujeito da política como associação livre, sem identidade, antes da identidade, isto é, antes do discurso. É o componente objetivo da identidade que, em meio aos discursos e as marcas identitárias, produz (de forma constitutiva, mesmo que parcial) o sujeito da amizade e, antes dele, o próprio sujeito da política. O sujeito da amizade e, portanto, do cosmopolitismo sugerido na frase de Arendt, tal como ressoa no filme, não é um sujeito sem marcas; continua se definindo em relação a elas, mesmo que pretenda delas se afastar ou que busque questioná-las. Não existe sujeito sem marca, não há sujeito não marcado a não ser como uma ilusão ou um autoengano. Por isso, o problema político que me parece mais crucial reside menos na coordenação do que na separação – que qualquer forma de coordenação pressupõe e que deve ser interrogada e desconstruída – entre a esfera das diferenças (identidade) e a esfera do comum (política).

  • http://opalcoeomundo.blogspot.com Padua Fernandes

    Alexandre, trata-se de uma carta que Arendt escreveu a Scholem, em 24 de julho de 1963, por conta do livro “Eichamnn em Jerusalém”. Entre as maluquices de que foi acusada por causa do livro, havia a de falta de amor ao povo judeu.
    No livro que dei para Flávia (“Compreender: Formação, exílio e totalitarismo”), encontrará uma referência na célebre entrevista que ela deu a Günter Gaus (está no You Tube). Ela diz: “A relação diretamente pessoal, em que se pode falar de amor, existe em primeiro lugar no amor real, claro, e também existe em certo sentido na amizade. Aqui a gente se dirige diretamente à pessoa, a despeito de sua relação com o mundo. Assim, pessoas das mais diversas organizações ainda podem ser amigas pessoais. Mas se você confunde essas coisas, se você leva o amor à mesa de negociações, para falar sem rodeios, acho isso fatal.”
    Abraços, Pádua.

  • http://opalcoeomundo.blogspot.com Padua Fernandes

    Só para terminar a citação. Gaus pergunta: “Acha apolítico?” E Arendt: “Acho apolítico. Acho amundano. E acho que seria um grande desastre.” (p. 46-47)

  • http://incinerrante.com/ Marcelo R. S. Ribeiro

    Obrigado pelos comentários, Pádua. O trecho citado da entrevista é muito contundente para entendermos o contexto das palavras de Arendt, sugerindo que para ela a separação entre o amor e a amizade pessoal e a negociação política deve ser mantida. É a fronteira entre privado e público que está em questão e, se para Arendt a confusão entre amor e amizade, de um lado, e negociação, de outro, constitui uma forma desastrosa de esvaziamento da política, o problema da política consiste justamente na linha que demarca a fronteira e que, dessa forma, como talvez disses Agamben, inclui o privado/pessoal na esfera pública da política sob a forma de uma exclusão. Ou interpreto mal?