Outros olhos: novo projeto
Você estuda fotografia? Trabalha com fotojornalismo, fotografia publicitária, fotografia documental ou outro gênero de produção fotográfica? Tem interesse em estudar e/ou trabalhar com fotografia no futuro e pratica a fotografia em seu tempo livre? Simplesmente gosta de fotografar e de guardar os tempos e as belezas das imagens? Gosta de tentar dar um ar mais elaborado às fotos dos eventos familiares, das viagens turísticas e dos encontros com amigos? Utiliza a fotografia para fazer arte? Busca ir além dos usos mais comuns da fotografia e produzir imagens diferentes? Se você respondeu “sim” a pelo menos uma dessas perguntas, continue lendo.
Em sua nova fase, o incinerrante começa a desenvolver alguns novos projetos - paralelamente às críticas de filmes, fotografia e arte, aos comentários de caráter mais livre e talvez ensaístico e aos textos de inclinação poético-literária. Hoje eu gostaria de falar do primeiro projeto, que se chama Outros olhos e consiste na abertura de um canal diferenciado de comunicação e troca com leitores e leitoras. Uma parte das pessoas que visitam o incinerrante é sem dúvida composta por gente que fotografa e que se interessa pela discussão, pela análise crítica e pela busca por algum tipo de originalidade, de inovação e de invenção criativa por meio da fotografia. Vocês sabem como a facilidade aparente do gesto de fotografar esconde – muito mal, aliás – uma série de dificuldades. Vocês sabem que o desenvolvimento tecnológico que faz com que câmeras de qualidade sejam cada vez mais acessíveis não significa que as fotos produzidas sejam necessariamente de boa qualidade. Vocês sabem que há um abismo entre ter um bom equipamento e obter imagens interessantes, embora o equipamento certamente influencie bastante no resultado. Vocês sabem que, mesmo diante das dificuldades, fotografar pode ser um prazer, até mesmo quando é um trabalho. Mas nem sempre o prazer aparece, seja porque não nos agradam os arranjos do momento do clique, seja porque a imagem final não corresponde ao prazer que sentimos quando fotografamos.
O uso criativo da fotografia, em todas as suas áreas, aplicações e possibilidades, representa talvez um dos objetivos mais difíceis de qualquer fotógrafo ou fotógrafa. Afinal, vivemos numa época em que a redundância impera sobre as imagens que nos habitam, que imaginamos e criamos – dentro da nossa cabeça ou dentro do aparelho fotográfico – e não é nada fácil fugir do fantasma da mesmice: com frequência, quando fotografamos, tentamos captar a unicidade de um momento, a beleza fugaz de uma cena, a composição cuidadosa de uma pintura que se escreve com luz e com sombra, a pulsação frágil mas intensa da vida, mas acabamos capturados pela repetição de formas estereotipadas, de fórmulas e receitas que se revelam desinteressantes, que muitas vezes esvaziam de sentido ou no mínimo resultam em imagens muito distantes das promessas de nossas intenções iniciais. É como se as imagens fossem sempre as mesmas e nossos olhos pudessem apenas se contentar com a mesmice. É como se fosse impossível olhar com outros olhos, não apenas as imagens que produzimos, mas o mundo que olhamos por meio dos aparelhos de produção de imagens. As coisas se mostram ainda mais angustiantes quando descobrimos que estudar fotografia – seja de forma autodidata, seja em escolas, faculdades e universidades – pode nos levar a dominar os recursos do aparelho e de seus eventuais (e numerosos) acessórios, entender de iluminação, de regras clássicas de enquadramento e de composição, conhecer as técnicas mais variadas etc., mas isso nem sempre resulta em melhores imagens, em maior prazer e em mais criatividade. O que fazer?
Uma das funções fundamentais desempenhadas pelos fotoclubes desde o século XIX e, mais recentemente, também por escolas de fotografia e cursos universitários, consiste na construção de um espaço de troca, de diálogo e de crítica em torno da fotografia. Nem sempre as coisas acontecem dessa forma, é claro, mas é importantíssimo que, nesses contextos, seja possível discutir, fazer e receber críticas sobre as imagens que produzimos. Na discussão em torno da fotografia, o olhar de outras pessoas sobre as imagens que produzimos pode nos ajudar muito, assim como a descoberta da multiplicidade de olhares possíveis sobre os mesmos temas ou assuntos.
O projeto Outros olhos tem como objetivo receber imagens de autoria de leitores e leitoras do incinerrante e, a partir da publicação de posts individuais com meus comentários sobre cada uma delas, construir um espaço de debate. Se você gostou da ideia, por que não começa enviando sua imagem? Pode ser qualquer tipo de imagem, desde exercícios feitos para trabalhos de faculdade até criações independentes e sem vínculo institucional. Pode ser de qualquer área da fotografia, da fotografia artística ao fotojornalismo, da fotografia publicitária à fotografia de eventos, e por aí vai. Pode ser sobre qualquer tema. O que você ganha em troca? A discussão da sua imagem com o mesmo interesse demonstrado nos posts da categoria Fotografia, a partir de um conhecimento prévio intimamente relacionado ao meu trabalho na disciplina Teoria da Imagem, que ministrei durante dois anos e meio na Faculdade Cambury. Além disso, você tem a oportunidade de divulgar a sua obra, incluindo seu site pessoal, seu blog, seu Flickr etc. Não é muita coisa, mas vá lá: é um começo.


