Palestra “Anarqueologia de Nanook: as pré-estórias de Allakariallak” em Desterro

Entre 29 de setembro e 1º de outubro, estive na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, participando do primeiro simpósio ao contrário: pré-estórias, organizado pelo ao contrário – laboratório experimental de estudos da literatura e seus avessos.1 Na palestra que apresentei, intitulada “Anarqueologia de Nanook: as pré-estórias de Allakariallak”, compartilhei alguns desdobramentos de um argumento em torno do filme Nanook of the North (Robert J. Flaherty, 1922). Esse argumento, que aponta para a anarqueologia a que se refere o título da palestra, apareceu inicialmente no ensaio “Casulo, secreção, segredo”.

Em breve, compartilharei a gravação da palestra.

Abaixo, reproduzo o resumo:

Elaborando uma abordagem especulativa, proponho uma reflexão metodológica pertinente ao campo da história do cinema em sentido amplo, especialmente aos filmes que emergem de diferentes zonas de contato colonial (das experiências variáveis de cinema indígena aos cinemas africanos e latino-americanos que reconhecem e interrogam sua condição histórica). Ao revisitar o filme Nanook of the North (1922), de Robert Flaherty, discuto a colonialidade que estrutura o cinema e sua história, em diálogo com o interesse que, de Jean-Luc Godard até tendências recentes de estudos de filmes não concluídos ou não realizados, tem sido dedicado ao que, em suas História(s) do cinema, Godard chamou de “filmes que jamais foram feitos”. No relato contido no prefácio de Flaherty para a restauração de Nanook of the North, depois de recordar o processo de realização do filme, o cineasta escreve: “Finalmente, em 1920, pensei que tinha filmado cenas suficientes para fazer o filme e me preparei para ir para casa. O pobre e velho Nanook ficava na minha cabana, falando sobre os filmes que ainda poderíamos fazer se eu ficasse mais um ano.” Referindo-se por meio do nome Nanook ao homem chamado Allakariallak, que protagoniza o filme de Flaherty e foi seu guia e interlocutor entre os Inuit, o relato conduz a um problema epistemológico: como falar dos filmes que Allakariallak não realizou? Retomando o filme realizado por Flaherty e sua colaboração ambivalente com Allakariallak, discuto os filmes não realizados como pré-estórias, em uma pré-história do que poderia ser o cinema Inuit, que se conecta, por exemplo, com a recente retomada do filme de Flaherty pela cantora Inuit Tanya Tagaq.

  • Marcelo R. S. Ribeiro

    Entropólogo da disseminação de mundos e professor de cinema‑delírio na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor do livro Do inimaginável (Editora UFG, 2019), coordena o grupo (an)arqueologias do sensível, desenvolve e orienta pesquisas sobre imagem, história e direitos humanos, cinemas africanos, história do cinema, arquivos e descolonização.

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  1. A viagem foi financiada pela Capes, por meio do Programa de Excelência Acadêmica, com recursos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). ↩